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A polícia pode me revistar na rua sem motivo?

A revista pessoal sem mandado exige fundada suspeita, descrita de forma concreta. Entenda o que isso significa e quando a prova pode cair.

Autoria: Dr. Clayton Yoshio, OAB/SP 317.500Publicado em: 26 de setembro de 2026Atualizado em: 26 de setembro de 2026

Resposta direta

Não. A busca pessoal sem mandado exige fundada suspeita de que a pessoa esteja com arma proibida ou objetos ligados a crime (arts. 240, § 2º, e 244 do CPP). O STJ decidiu no RHC 158.580 que a alegação vaga de "atitude suspeita" não basta, e que encontrar algo depois não valida uma revista ilegal.

O que é a busca pessoal?

A busca pessoal é a revista feita no corpo da pessoa, nas roupas, na bolsa, na mochila e, segundo o STJ, também no veículo. É o "baculejo" ou "geral" da linguagem popular.

O Código de Processo Penal (CPP) separa dois tipos de busca. A domiciliar, feita dentro de casa, em regra depende de mandado judicial. A pessoal, regulada nos arts. 240, § 2º, e 244, pode ser feita sem mandado, mas só em situações específicas. Se o seu caso envolve entrada em casa, o artigo sobre mandado de busca e apreensão trata desse tema.

Quando a revista sem mandado é permitida?

O art. 244 do CPP autoriza a busca pessoal sem mandado em três situações:

  1. no caso de prisão;
  2. quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja com arma proibida ou com objetos ou papéis que constituam corpo de delito;
  3. quando a medida for determinada durante uma busca domiciliar.

O art. 240, § 2º, repete a ideia: a busca pessoal se faz quando houver fundada suspeita de que alguém esconda consigo arma proibida ou objetos ligados a crime.

A expressão-chave é fundada suspeita. Não basta o policial "achar" algo. A suspeita precisa ter base em fatos concretos que possam ser descritos depois.

Pense em dois exemplos. No primeiro, o policial vê alguém entregar pequenos pacotes a várias pessoas em sequência, recebendo dinheiro em troca. No segundo, o policial vê alguém parado numa esquina, de boné, que "parecia nervoso". O primeiro descreve um comportamento concreto ligado a um possível crime. O segundo descreve apenas uma impressão. É essa diferença que os tribunais analisam.

Há também uma regra sobre quem faz a revista: a busca em mulher deve ser feita por outra mulher, se isso não atrasar nem prejudicar a diligência (art. 249 do CPP).

O que o STJ decidiu sobre a "atitude suspeita"?

Em abril de 2022, a Sexta Turma do STJ, no RHC 158.580/BA, relator ministro Rogerio Schietti Cruz, fixou critérios que passaram a ser aplicados em muitos casos:

  • a fundada suspeita deve ser descrita de modo objetivo e justificada por indícios concretos de que a pessoa está com drogas, armas ou outros objetos ilícitos;
  • a alegação genérica de "atitude suspeita" é insuficiente;
  • aparência, roupa, idade, cor da pele ou local de moradia não podem justificar a revista;
  • o fato de encontrar algo depois não torna válida uma revista que já era ilegal, porque a suspeita é avaliada com o que se sabia antes da diligência.

Que situações o STJ tem aceitado ou recusado?

Em 2025, o STJ publicou um resumo da sua jurisprudência sobre o tema. Alguns pontos:

  • Nervosismo, sozinho, é subjetivo demais e não basta.
  • Antecedentes criminais, sem outro elemento concreto, não justificam a revista.
  • Denúncia anônima sem nenhuma confirmação é insuficiente; se for minimamente confirmada por dados objetivos, como a descrição exata de um veículo, pode justificar a abordagem.
  • Tentativa de fuga pode configurar fundada suspeita, com análise cuidadosa da credibilidade da versão policial.
  • Cheiro de maconha pode justificar a busca pessoal, mas não basta, sozinho, para entrar em uma casa sem mandado.
  • Inspeções de segurança em aeroportos, rodoviárias e eventos são administrativas e não seguem a lógica da busca pessoal.

Cada caso é analisado com base no que ficou registrado: boletim, auto de prisão e o relato dos policiais em juízo.

O que acontece com a prova de uma revista ilegal?

O art. 157 do CPP diz que são inadmissíveis as provas obtidas em violação de normas constitucionais ou legais, e também as derivadas delas, salvo fonte independente.

Assim, se a revista for considerada ilegal, a droga ou a arma encontrada pode ser excluída do processo, assim como o que veio a partir dela. Sem essa prova, a acusação pode não se sustentar. É um ponto muito discutido em casos de tráfico ou porte de drogas e de porte ilegal de arma.

Fui abordado e revistado: o que fazer na hora e depois?

Na hora da abordagem:

  1. Mantenha a calma e não resista fisicamente. Discutir a legalidade é tarefa para depois, por meios legais.
  2. Observe e memorize detalhes: horário, local, número da viatura, nomes ou identificação dos policiais, testemunhas presentes.
  3. Não desbloqueie o celular nem responda perguntas sobre os fatos se não quiser. O direito ao silêncio vale desde a abordagem. Sobre o celular, veja o artigo sobre acesso da polícia ao celular.

Depois da abordagem, principalmente se houve prisão:

  1. Anote tudo o que lembrar o quanto antes, inclusive o que os policiais disseram para justificar a revista.
  2. Identifique câmeras de comércios ou casas próximas. Imagens podem ser apagadas em poucos dias.
  3. Liste testemunhas que viram a abordagem.
  4. Compare a sua versão com o boletim e o auto de prisão. Diferenças entre o relato oficial e o que aconteceu são relevantes.
  5. Se houve prisão em flagrante, a ilegalidade da revista pode ser apontada já na audiência de custódia. Veja o que acontece no artigo sobre preso em flagrante.

E se a polícia disser que eu estava em flagrante?

Às vezes, o relato policial afirma que a pessoa estava em flagrante antes da revista, por exemplo vendendo droga à vista. Nesses casos, a discussão passa a ser sobre a credibilidade desse relato e sobre o tipo de flagrante. O artigo sobre flagrante preparado, esperado e forjado explica as diferenças.

A página de advogado para prisão em flagrante em Sorocaba mostra como o escritório atua desde a delegacia.

Um advogado criminal pode analisar o seu caso e orientar os próximos passos.

Perguntas frequentes

A revista no carro segue as mesmas regras?

Segundo o STJ, a busca veicular sem mandado segue o mesmo padrão da busca pessoal: exige fundada suspeita objetiva. Inspeções de segurança em aeroportos, rodoviárias e eventos são tratadas como fiscalização administrativa, com outra lógica.

Mulher pode ser revistada por policial homem?

O art. 249 do CPP diz que a busca em mulher será feita por outra mulher, se isso não atrasar ou prejudicar a diligência. Se havia policial feminina disponível e a regra não foi seguida, isso pode ser questionado.

Correr ao ver a polícia justifica a revista?

Em julgados recentes, o STJ considerou que a tentativa de fuga pode configurar fundada suspeita, mas destacou que a versão policial sobre a fuga deve ser analisada com cuidado. Já o nervosismo, sozinho, não basta.

A guarda municipal pode fazer revista pessoal?

O STJ entende que a guarda municipal precisa de fundada suspeita e de relação com a proteção de bens, serviços e instalações do município. A simples aparência suspeita não autoriza a revista.

Veja também a página Perguntas frequentes.

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O conteúdo deste artigo é meramente informativo e reflete entendimento geral sobre o tema na data de publicação. A aplicação das regras jurídicas pode variar conforme os fatos, documentos e circunstâncias de cada caso. A análise de situações concretas depende da avaliação individualizada de documentos, fatos e circunstâncias específicas.